Uma viagem, de metrô.
Estação de metrô Joana Bezerra, 25 de
Novembro de 2018. Um domingo.
Não
foi a primeira vez que andei de metrô, eu era muito pequeno na primeira vez,
pra me lembrar de algo, hoje foi a segunda. As estações de Pernambuco são iguais
aquelas pequenas estações que a gente vê nos filmes americanos, com algumas pichações
e muito lixo.
Mas tem alguma coisa lá...
É engraçado, tem vendedor ambulante de todo tipo de coisa, numa única viagem
eu vi gente vendendo pente, escova de dentes, capa de celular, biscoito waffle,
amendoim, pastilhas, fone de ouvido, etc..
O espaço no interior do transporte é grande, mas as cadeiras são mal
organizadas, demais até, são postas em formato de L, de forma que os joelhos da
gente ficam se batendo com o da pessoa sentada ao lado, sem falar que sobra
muito espaço por que tem poucas cadeiras. O engenheiro que fez isso
provavelmente estava embriagado... pobre coitado.
Mas tem algo lá...
O barulho do metrô se movimentando aumenta, me envolve, me acalma.
O
rosto das pessoas cansadas é o que adorna o metrô. O que os impulsiona? As
pessoas vem e vão, pra trabalho ou lazer, mas não parecem buscar lugar nenhum,
nada, parecem nem saber pra onde vão... aliás, talvez nem vão mesmo...
Enquanto eu não consigo passar 1 minuto desocupado sem refletir sobre a
vida, as perguntas das quais não tenho respostas, os demônios que tiram meu
sono e me fazem questionar tudo o que meus 5 sentidos dizem que é real.
Elas não parecem ter o mesmo problema... Queria ser como elas...
O barulho do metrô.
Percebi que a linha do metrô passa por muitas periferias. Deve ser por
causa do barulho que o metrô faz, aquele mesmo que me acalma sabe...
Desvaloriza o terreno, as pessoas com mais condições vão escolher outro lugar
pra morar, sobra para as pessoas que não tem opções. Sobras.
Aliás, quase todas as estações são em periferias, com exceção de duas,
uma do aeroporto da capital e outra do maior shopping da capital. Ao que
parece, os consumidores vêm de metrô, ironicamente. Não sei o que parece pra
você, mas pra mim, parece que tem algo muito errado. A vida é carregada de
sarcasmos...
Enquanto no mundo além da janela, uma mulher, na casa dos 50 anos, com
uma saia longa, roupagens típicas de uma mulher cristã, passava pra lá e pra
cá, com um carrinho de feira carregado de sacolas cheias, tentava vender seus
produtos.
Ela, duas crianças e mais um rapaz, todos vendedores, de produtos
diferentes, percebi que não eram conhecidos, não estavam juntos. O que tinham
em comum era a visível condição de vida desagradável, ao menos é o que penso, por
que pra mim, não seriam agradáveis.
É foda. Criança tinha que tá brincando... É nessa hora que a gente se
pergunta onde tá deus...
É impossível olhar pra isso e não se sentir abatido, saber que alguém tá
em uma fase difícil e não poder ajudar... Aquela sensação de que a merda do
mundo tá todo errado, e você é completamente incapaz de fazer alguma coisa pra
mudar isso. Inútil. O mundo é fudido e você também.
Eu queria que as coisas fossem diferentes, mas parece que deus só vê
quando convém...
Ela também pedia dinheiro pra uma caixinha de natal. A tia, batalhadora.
O natal dela vai ser mais difícil que o meu, provavelmente... A vida é injusta,
cruel, tem gosto amargo, o cara que escreveu ela só pode ser um sádico.
Catei algumas moedas do meu bolso, três de 5 centavos, uma de 25 e outra
de 1 real, era tudo que eu tinha naquele momento, tinha sobrado de 8 reais e 50
centavos que havia gastado com uma coxinha, uma garrafa d’agua e um bilhete do
metrô... Sobras, é tudo que temos!? A minha parada era a próxima, estendi a mão
para a tia, que tava a alguns passos de mim, ela olhou:
–Escova?
–Caixinha. – Eu respondi.
Ela respondeu com... bem, não lembro agora, mas foi algo relacionado a
deus, e em alto volume.
A caixinha, embalada em papel de presente vermelho, com um corte em cima
pra colocar as moedas e em um dos lados da caixa, um papel escrito “Colabore
com a caixinha de Natal!” (Na minha cabeça, talvez pelo estilo do desenho das
letras, me pareceu uma frase feliz, animada.)
Ela
pegou a caixinha e se aproximou, sorrindo e dizendo “Deus te abençoe!”. Falou,
pra o vagão inteiro ouvir, algo que não me lembro... mas lembro que tinha a ver
com deus... eram coisas boas. Me agradeceu mais uma vez.
–Que deus visite a situação financeira desse menino! Obrigado meu fio!
Confesso que não sabia muito bem o que pensar...
–Deus te abençoe! – Ela repetiu.
–A senhora também.
O barulho do metrô... Não. Silêncio...
Sempre gostei do barulho que os metrôs faziam nos filmes, não sabia o
motivo, mas era agradável, me colocava em um estado de imersão. Ouvindo
pessoalmente, é ainda mais poderoso... só entendi o porquê perto do final da
viagem, é como o barulho de chuva torrencial no telhado, é isso que me lembra;
eu, encarando uma noite chuvosa pela janela do meu quarto, que fica de frente
pra rua, uma praça cheia de árvores.
Sempre me perguntava por que esse barulho me acalma, e hoje percebi.
Imaginei um barco a vela, quando tem tempestade lá fora, você esquece tudo que
é fútil, e foca no essencial: não naufragar. Você é movido, impulsionado,
guiado automaticamente pelo instinto de sobrevivência. Sua mente ignora
qualquer superficialidade, você se agarra ao timão e tudo em que pensa é lutar
contra a tempestade. O passado e o futuro perdem a importância pois correm o
risco de acabar naquele momento.
Nada mais importa, além de sobreviver. Tem gosto de liberdade...
Deve ser isso, a crise me traz certo conforto... pelo menos enquanto a água
tá lá fora. Quando a água entra no barco, quando a crise é interna, fica bem
mais difícil.
Ainda sentado, inerte em pensamentos, ouvi a tia citar um versículo da bíblia.
–Salmos 23, o senhor é meu pastor e nada me faltará! (Depois ela deve
ter falado mais alguma coisa que não lembro, porque, sem explicação aparente,
nesse momento eu fiquei absorto no meu constrangimento.)
As portas abriram, eu saí, a tia também, mas só pra mudar de vagão.
–Olha a escova!
Te desejo toda sorte do mundo, tia.
Eu segui, muita gente saiu daquele metrô, depois descemos as escadas, eu
no meio deles... Pra onde estão indo? Pra onde estamos indo? Fico imaginando se
ao menos algum deles é perturbado pelas mesmas perguntas que me assolam de
madrugada...
Me lembrei daquelas cenas de filme onde a câmera fecha com o
protagonista numa dessas multidões, misturado, mostrando que ele é só mais um,
seguindo o fluxo, indo a lugar nenhum.
Sensação ruim.
Alguma dia volto ao metrô só pra passear, sem destino...
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