Em Chamas
Calor, é o que percebe primeiro, antes mesmo de abrir os olhos, em
seguida, com os ouvidos se ajustando como se acordassem separadamente de sua consciência,
ouve um crepitar, a sensação, lembrava ele, era de estar perto de uma fogueira
de São João, perto, quase dentro. Sente o chão abraçando seu corpo, está
deitado, ele acorda, de cara no chão, atordoado, sente a cabeça girar e um
calor infernal alisando sua pele, se levanta aos poucos, sentindo cada músculo
se retesar, como se não os usasse a bastante tempo.
O cheiro de madeira queimando
invade suas narinas, ele observa ao redor, tentando ainda, lhe-dar com a
tontura, observa que está dentro do que parece ser uma casa rústica, madeira
velha, escura e grossa, mas aparentemente resistente, com mobílias igualmente rústicas,
uma mesa de centro aqui, uma cômoda ali, cadeiras sobrepostas acolá e fogo... Fogo
em tudo! O lugar todo está em chamas!
O desespero o toma de assalto.
“Fogo, preciso sair daqui!”
“Espera, onde é aqui? Onde eu tô e como vim parar aqui?”
Ignorando a ausência de
respostas, ele larga as perguntas ao vento e corre em direção a janela, a única
janela que aquele cômodo dispunha, de repente um pedaço do teto cai a sua
frente, o fogo aumenta, velozmente, e envolve a janela impedindo-o de se
aproximar, tudo que ele consegue ver lá fora, é escuridão... É noite... Com a
garganta queimando e os olhos ardendo, ele olha para o outro lado do cômodo,
localiza uma porta, a qual o fogo ainda não alcançou, e corre em direção a ela.
Alcançada a maldita porta, o cansaço
começa a tomar conta do seu rosto, sente a fumaça nos pulmões, a respiração
fica difícil, ele empurra a porta, o nervosismo aumenta, não é a saída, apenas
outro cômodo, que tanto no formato, quanto nas mobílias, em pouco se difere do
primeiro... a não ser por falta de janela e a porta que agora se encontra a sua
direita, ele corre, com a dúvida o consumindo por dentro, como o fogo consumia
a casa...
“Como?”
Olhos lacrimejando, sensação
de ter areia em sua garganta, arranhando sempre que ele engolia, ele faz o que
pode pra se manter afastado das chamas, como que envolvido por uma dança cuja
parceira são labaredas, um tango tenebroso... ótimo dançarino, chega até a
porta sem ser tocado pelas chamas, e a abre com o coração acelerado...
“Não é a saída... mas que merda, não é a saída!”
“Como eu vim parar aqui? Onde é AQUI?”
“Espera... quem sou eu? Não consigo lembrar de na...”
Um espelho, intocado pelo
fogo, chama sua atenção... Parecia magica, a parede ao redor e uma pequena mesa
ao lado dele estavam em chamas, mas o fogo não se espalhava para o espelho,
rústico, de um metro e meio, suspenso do chão, fixado num eixo rotativo, a
madeira de um tom cor de vinho, mas cinzento pelo pó acumulado, dando a
impressão que ele estava ali a muito tempo, e continuava ali, alheio a tudo...
Ele se coloca a frente do
espelho, encara o reflexo que veste uma camisa branca chamuscada, uma calça
jeans surrada e um tênis comum, e, como se todo o resto não tivesse o causado
pânico o suficiente, ele não se reconhece.
“Esse rosto... não me lembro deste rosto... não é o meu... MAS QUE
MERDA!”
Assustado, em pânico,
desesperado, tomado por uma cólera, como se o instinto primitivo de
sobrevivência tivesse sido invocado depois de adormecido por milênios, ele
socou o espelho uma... duas... três... até não haver mais espelho...
Ofegante, olhou para os cacos
no chão, o corpo banhado de suor, o punho direito ensanguentado, o suporte, que
outrora sustentava o estranho espelho, foi tocado pelas chamas... olhou para a
porta, do outro lado, e foi, passos pesados, como se carregasse o mundo nas
costas... Atlas... a abriu com um chute.
Apenas outro cômodo, uma
cópia? O coração acelera ainda mais, o calor insuportável, outra janela, em
chamas, outra porta, outro cômodo, outros móveis, outra porta, outro cômodo, o
calor, a porta, o cansaço, o cômodo, os olhos ardendo, o fogo, a porta... Então
ele para...
O cansaço lhe vence, o pulmão sofrendo,
o coração já não cabe mais no peito, lhe resta pouca energia, não lembra o
próprio nome, sua visão debilitada ainda permite enxergar o suficiente para perceber
que está de volta ao cômodo em que acordou...
“Como...”
Ele desaba, sobre os próprios
joelhos, próprios? Não, ele jura que esse corpo não é o dele...
“Inferno!”
Ele curva a cabeça e fecha os
olhos com força, com raiva, com medo, lacrimejando...
“O que é isso tudo?”
Atormentado pelas dúvidas,
perguntas que não calam, lábios rachados, quase cego, agonizando por dentro e
por fora, decide por fim a tudo, pondo fim a si mesmo, se joga numa mobília em
chamas, uma mesa de Sala de Estar, de madeira espessa, ardendo em chamas...
Sente o fogo queimar, arder,
então se levanta apressadamente e se afasta... Não consegue... Não pode se
matar.
É então que ele percebe; o fogo
não esta consumindo, nem os móveis, nem a casa, nem ele, nem suas roupas...
“Meu deus... isso é loucura... estou louco?!”
Ele põe a mão no fogo, sente o
ardor, olha ao redor, ele sente, vê e ouve, mas não consome.
“Não é real... não pode ser...”
Sente, mas lúcido que qualquer
sonho, sente, mas não morre, não pode... cansaço, fumaça, calor...
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