20 de Junho de 2018
Vi um homem comendo hoje, sozinho, numa mesa próxima a
minha, que, devo acrescentar, não se localizava em nenhum refeitório, eram uma
série de mesas dispostas para estudantes, em baixo de um prédio acadêmico.
Nunca tinha o visto antes, quando dei por mim, ele tinha capturado toda a minha
atenção.
Era um homem de
aparência bem simples, pele branca, barba, bigode, óculos de grau, boné surrado
e sem marca, camisa social dobrada no antebraço, calça jeans e um tênis comum,
não me pareceu ser um professor.
Por estar
desocupado, observava quem passava quando o vi chegando, mas ele não apresentou
nada de especial, então o tirei da minha vista, nem o vi sentando, nem tirando
a comida da mochila, nada, até começar a comer...
Enquanto ele comia, um cachorro vira-lata, sem
dono, descansava, alerta, próximo a seus pés, deitado com a cabeça erguida,
vigiando suas costas, quase que como dando cobertura... Como se eles fossem
amigos de longa data, como se houvesse alguma espécie de acordo entre eles... Pensar
nisso me causou uma sensação estranha, mas não vem ao caso agora...
O que realmente prendeu minha atenção, foi o
seu comportamento enquanto se alimentava. A julgar pela hora, aproximadamente 11h45min
da manhã, deveria ser o seu almoço, o alimento que ele trouxe guardado numa
caixinha de isopor, que por sua vez, estava embalado em um saquinho plástico
branco. Não consegui identificar a refeição, mas tenho certeza que não continha
carne.
Eram movimentos
simples, perfeitamente precisos, nem lentos, nem rápidos, todos eles, precisos.
Ele parecia não prestar atenção em nada ao seu redor, apenas se alimentava,
calma e precisamente, como um robô seria, se pudesse ser humano.
Aquela cena foi tão
destoante da paisagem ao seu redor, que conquistou minha admiração
instantaneamente. Enquanto todos passavam, absortos em seus mundos
particulares, com passos apressados, risos altos e conversas histéricas, ele
parecia estar num campo verdejante, banhado pelo sol das 3 da tarde, sombreado
por nuvens, sentindo uma leve brisa no rosto, ou no alto de uma montanha,
sozinho, mas não solitário.
Ele parecia ignorar
tudo, com movimentos calmos e precisos, como um monge... Um homem simples e
calmo, em tempos turbulentos...
Quando terminou sua
refeição, se levantou, calmamente, levou a caixinha de isopor e a sacola até o
lixo, a 7 passos dali, voltou a mesa, pegou sua mochila e, enquanto o cachorro
continuava lá, imóvel, o homem foi se distanciando, caminhando calma e
silenciosamente... Como um monge...
Enquanto ele se
distanciava, fiquei a me questionar; “Que tipo de passado esse homem teria?”,
“Que tipo de vida leva?”, “O que é esse homem?”, “Que tipo de acontecimentos,
experiências, de aprendizados, circundam a vida desse monge?”, “O que o
moldou?”
Talvez minha admiração provenha do desejo
reprimido que carrego, de ser como ele, de possuir tamanha disciplina, no
fundo, sinto falta da calma que a ele, transborda... Talvez aquilo seja... Paz
de espírito...
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